sexta-feira, 25 de julho de 2014

[Resenha] Deixa Ela Entrar – John Ajvide Lindqvist

Meu caminho pela literatura gótica envolvendo vampiros é um tanto conturbado, digo isso porque já li muita coisa boa, mas infelizmente em alguns momentos fui meio corrompido por vampiros que brilham quando estão ao sol e irmãos brigando por certa doppelgänger! Nessa resenha, iremos deixar os contos de fada de lado e mergulhar de cabeça no sombrio e sangrento ambiente criado por John Ajvide Lindqvist num subúrbio de Estocolmo, onde opressão, egoísmo e crueldade andam de mãos dadas, um lugar de criaturas de particularidades tão interessantes que motivam o leitor a devorar o livro, de mistérios sobrenaturais bem elaborados, sem pontas soltas e que fogem da mesmice estereotipada encontrada nas atuais obras do gênero. A capa do livro ao lado, que eu achei de uma simplicidade maravilhosa, entrega (assim como o início da minha resenha) que a mitologia vampírica será trabalhada nessas 504 páginas, devo colocar um alerta terror aqui pra quem tem estômago fraco pra essas coisas e se você que está visitando o blog não quer ler nenhuma espécie de spoilers, sugiro que leia a última resenha de Scandal que minha amiga Bárbara fez que ficou linda e livre dos mesmos! :D


Oskar, nosso protagonista, é um menino gordinho e solitário. Ao entrar na sexta série (que em minha opinião é a transição entre infância e adolescência) ele passa a sofrer um bullying bem pesado, como se não bastasse esses problemas, o garoto também sofre de incontinência urinária e sangra pelo nariz quando fica nervoso (ou seja; o corpo dele dá motivo pros meninos maldosos da escola dele o sacanear), seus pais são divorciados, então ele mora com sua mãe e visita ás vezes o pai alcoólatra que mora fora da cidade. Como válvula de escape da vida miserável que o garoto acha que tem, passa a criar um mundo só seu de pequenos furtos, livros, gibis e recortes sobre psicopatas (WTH?!?!), ou seja... É um garoto conformado e cheio de segredos, e dentre esses segredos encontramos Eli!


Neste parágrafo encontramos mais spoilers que o normal, porque logo de cara te digo que Eli é uma vampira, e quando eu digo vampira eu quero dizer em sua essência... Nada de andar de dia e etc.! Eli é um vampiro como se deve ser, “de verdade”.  Foi transformado ao 12 anos há 200 anos lá atrás. E também está sozinha, guarda seus segredos, é conformada com sua situação de vida e qualquer mudança de gênero acima em se tratando dessa personagem foi proposital. Estabelece uma amizade com seu vizinho Oskar que é bonita e um tanto bizarra. A garota vive com um homem chamado Hakan, pedófilo, dono de diversas passagens pelo livro, algumas normais, outras nojentas e chegamos até as repulsivas.


A obra em si pode ser classificada como ambígua e paradoxal. A ideia toda desse livro em algum momento se torna contraditória, ao menos na minha mente.  Começamos citando que se trata de um romance tão meigo e ao mesmo tempo tão ingênuo, em meio a um cenário funesto e caótico. Depois, se pega confrontando o espectador de frente, colocando diversos valores que consideraríamos errados como perfeitamente normais e aceitáveis. Um exemplo clássico é aquela cena da piscina, onde dois garotos são mutilados, outro está em pânico e o protagonista se encontra quase afogado... Ainda assim fica difícil segurar o sorriso quando Eli e Oskar se reencontram. O livro se mostra abarrotado de valores invertidos, que causam certa confusão, afinal de contas temos certeza do que está acontecendo, do quão doentio tudo aquilo é, mas mesmo assim somos acometidos por sentimentos bons.


O ambiente denso criado por John Lindqvist que foi descrito no primeiro paragrafo não envolve somente os três personagens citados acima. O livro possui um elenco até grande com diversos núcleos o que nos permite dar uma olhada através de várias perspectivas diferentes alguns dos acontecimentos estranhos que tem intrigado a população local. Cada um com sua importância participam de forma direta e indireta do enredo horrendo patrocinado pela chegada de Eli e vão aos poucos respondendo perguntas deixadas em aberto no decorrer da trama.  Eu, particularmente, fiquei boquiaberto com a sutileza, o descaso e a banalidade com a qual assuntos tão pesados foram tratados de forma tão simplória.


Não existe dificuldade na leitura desse livro, talvez só em se acostumar com a mudança repentina de narração entre os personagens logo no começo. O livro é dividido em cinco partes, e não existe divisão de capítulos. "Deixa Ela Entrar" em algum momento e aos poucos vai se revelando uma linda e inusitada história de amor, onde dois jovens ou melhor... Duas criaturas se aproximam ao se sentirem rejeitados do convívio social e se juntam para enfrentar seus problemas, apoiando-se mutualmente. No final cheguei à conclusão que, sem sombra de dúvida, trata-se de uma obra-prima do gótico contemporâneo, que consegue tirar o vampiro das fábulas atuais e das sombras do esquecimento, retomando e renovando elementos de sua caracterização e origem com grande força e promovendo uma ligação com os terrores que nos incomodam em tempos atuais.


Adaptações Cinematográficas




Existem duas adaptações cinematográficas, são intituladas; Deixa Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In), 2008 e Deixe-Me Entrar (Let Me In), 2010. Entre as duas obras eu recomendo a quem não tenha o interesse de ler o filme, que assista a primeira, ou seja: a sueca (nota-se pelo título) graças ao compromisso com a fidelidade de enredo e por ser ambientada exatamente como nos livros, deixa pequenos elementos de fora, mas nada grande o suficiente para que a história fique sem sentido, minha única crítica com essa verão é que em minha opinião poderia só ser um pouco mais sombrio por se tratar de um filme de terror, fora isso o diretor captou bem a essência do livro. Em relação à adaptação americana, não digo que ficou ruim... Ouso dizer que até preencheu algumas lacunas deixadas pelo sueco, mas nada tão grande assim digno de falta no anterior, o cenário também muda para um subúrbio no México e a atriz Chloë Grace Moretz encarna Eli, e eu acho essa menina muito linda! :3


Depois de ler esse livro empolguei, voltei a ter interesse para esse tipo de literatura e quis procurar mais. Cheguei até trocar ideias com uma antiga professora e amiga (Alessandra) minha pelo facebook, e um dos assuntos dessa conversa foram os melhores livros do gênero que nós já lemos, enquanto conversava mentalmente criei meu TOP5 de livros de vampiros e para minha surpresa “Deixa Ela Entrar” estava lá, ocupando um lugar só dele! E agora compartilho com você leitor a pequena lista que criei e meus porquês.


TOP5 - Livros de Vampiros


“Os Sete” se encontra em quinto lugar nessa lista por se tratar do primeiro livro que li do tema, acredito também que essa obra tenha abrido muitas portas entre os escritores brasileiros de terror. O livro é ótimo e eu já li mais de uma vez! Ah... Pra quem gosta de X-Men é um prato cheio. Rsrs


“Deixa Ela Entrar” ganha aqui o quarto lugar pois simplesmente apagou aquela impressão ruim sobre os sanguessugas que criei depois que li a saga Crepúsculo e os Diários do Vampiro. O horrendo caso no subúrbio de Estocolmo conseguiu me prender, me convencer e até me empolgar.

Li “Drácula” de Bram Stoker quando terminava o meu ensino médio. Foi um livro muito difícil e eu demorei cerca de um mês para o encerrar. Hoje em dia, infelizmente, me lembro mais do filme estrelado por Gary Oldman, que nem achei tão fiel assim, do que da obra em si. O sentimento que vivi depois que o terminei foi ímpar.

Em segundo lugar coloco “A Hora do Vampiro” que comprei em um sebo por 5 reais! Stephen King criou um caos em uma cidade pequena e um monstro na pele do inesquecível Mr. Barlow. Certa vez li em um site que o autor disse que esse foi um de seus piores trabalhos... Modestia, hein, King? Queria eu ter tanta originalidade nos meus piores trabalhos...

“O Vampiro Lestat” aparece no topo da minha lista mais pelo personagem do que pela obra em si. Anne Rice nos apresentou Lestat em “Entrevista Com o Vampiro” e na sequencia nos contou sua linda história. O final desse livro é espetacular, personagens novos são acrescidos e finalmente um protagonista em livros assim estabelece um padrão de vampiro perfeito.

--- 


Bom, espero que tenham gostado da minha resenha, e das minhas outras recomendações também. Ninguém viu a Bárbara falar sobre vampiros aqui, né? Vou divulgar um segredo dela; é a menina mais medrosa que conheço! Teve medo até de assistir a primeira temporada de American Horror Story. Pensando nesses medos da minha querida amiga de blog, resolvi lançar um desafio. Como aqui hoje eu não só fiz a resenha, como também abri o tópico pra comentar sobre meus livros favoritos do gênero, nada mais justo do que ela fazer uma resenha de um livro de vampiros também, certo? Ela pode ler qualquer um dos outros da minha lista se quiser e depois nos agraciar com seus comentários sobre esses terríveis seres das trevas através de uma resenha. Rsrs Que tal? Estamos precisando de mais sombras aqui nesse blog!



Muito obrigado pela paciência, desculpem a enrolação que foi esse mês de julho e qualquer comentário sobre o livro ou dica sobre outras obras vampirescas serão bem vindas! Até agosto. \o/

2 comentários:

  1. Querido, que texto envolvente. Muito bem escrito. Tem comicidade, ironia e seriedade em doses certas. Fiquei com muita vontade de ler a obra. Putz, VC analisou sabiamente até a capa do livro... E obrigada por me citar.

    ResponderExcluir
  2. Seu top05 é bem interessante; o meu é esse

    01 Qualquer um da Série House of Night P.C. Cast e Kristin Cast.
    02 30 Dias de Noite
    03 Vampire the Masquerade
    04 O vampiro que descobriu o Brasil
    05 Os livros da série Instrumentos Mortais (apesar da trama de vampiros não ser o centro)

    Leia qualquer um desses, pode ser que sua lista mude um pouco depois. bjim bjim ;***

    ResponderExcluir