quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Estrada - John Hillcoat

Baseado no livro de Cormac McCarthy, o filme A Estrada já se inicia em um mundo pós apocalíptico em que a terra está toda destruída. E quando digo terra é terra mesmo, não há mais plantações, nada pega, as árvores que existem estão tão secas que incêndios espontâneos acontecem, são raríssimos os insetos que surgem durante o filme, os rios chegam a estar verdes, e o Sol está coberto por uma camada cinza que me lembrou o céu de Cuiabá quando lá morei no fim de 2000.

A gente acompanha um pai (Viggo Mortensen, vulgo Aragorn) e seu filho (Kodi Smit-McPhee) pela estrada a fora onde vão bem sozinhos rumo a costa do país, onde acreditam ter mais pessoas ou pelo menos um mar mais limpo. Durante esse caminho vários flashbacks vão sendo revelados que explicam algumas coisas que os monólogos do pai narrador e os diálogos entre os presentes não contam, como o que houve com a mãe dessa família e o porque de estarem indo para o sul.

A noitinha, antes de dormir, tive sonhos estranhos que misturavam A Estrada, The Walking Dead e Ensaio sobre a Cegueira. Não que sejam extremamente parecidos em seus contextos, mas o ponto principal, que seria a reação humana com a adversidade (Ó como eu falo bonito), é assustador em todas as três histórias.

Uma coisa que o Aragorn pai deixa bem claro desde o começo é o medo que têm do canibalismo. Ele e o filho se intitulam 'pessoas boas' pois não realizam essa prática e fazem a gente pensar em que limites a gente passaria quando não temos mais tantas opções assim. E nesse termo senti um certo paradoxo, tanto que em outras cenas o pai faz coisas que na minha visão também não são boas, mas ele julga que sim, o que me vem outra ideia: a gente se limita porque são coisas ruins, ou porque achamos nojento?

--=-=-=-=-=-=-=-=-=- Spoilers pra todo lado -=-=-=-=-=-=-=-=-=--

Eu gostaria de destacar algumas cenas do filme. 

Eu não falarei sobre o porão daquela casinha organizada, pois acho que valeu mais pelo susto e desespero, mas vou pular pros andarilhos solitários que eles encontram pelo caminho.

Comecemos com a primeira aparição de um homem, já senhor e meio cego, que o menino força o pai a ter dó e ajudá-lo. É engraçado como a gente fica tentado, assim como o garoto, a coloca-lo no bando, cuidar dele, e começar a montar uma família. Não digo que o Aragorn estivesse errado, que devesse tomar conta sozinho de uma criança e de um velho, mas as vezes o lado lógico da cabeça dele suprime completamente o lado caridoso.

Isso é visto de novo no caso do rapaz que rouba todas as coisas enquanto o menino dorme. O rapaz não fez coisa alguma com o garoto, naquelas condições julgo que as coisas já estariam resolvidas quando pegam seu carrinho de suprimentos de volta. Mas, mesmo acabando de sentir os pés corroerem na lama ácida ainda obrigar o rapaz a dar suas próprias roupas e sapatos para eles... Achei que não dava mais para julgá-lo como uma 'pessoa boa'.

Fico pensando ainda na cabeça confusa do menino, ouvindo uma hora 'Vou te proteger. Vou te proteger.' e em algumas horas ver o pai apontar uma arma pra sua testa. Essa oscilação o tempo todo deve ser bem confusa. Mesmo assim o garoto se mantem firme em algumas convicções, o que se torna ainda mais interessante por ele já ter nascido no meio do caos, e não ter tido essa formação de princípios numa época feliz. Lembrando que o que aconteceu com a mãe do menino foi exatamente o contrário. Ter tido uma vida muito boa antes, e não ter suportado perder tudo isso.

Quando surgiu o rapaz com pinta de cigano, armado que é uma beleza, pedindo pra ajudar o garoto quando ele ficou sozinho foi o auge da ironia. Ter que decidir entre arriscar ou não, momentos depois de ter ouvido o pai falar exatamente para não fazer isso. Não que você tivesse muitas opções de escolhas quando se é um menino contra um tiozão com uma arma, mas oquei. 

Não foi um final feliz, mas foi poético. Principalmente a figura do cachorro. Me senti confusa quanto a isso por que me deixou de certo modo realizada, mas não é de modo algum um final feliz. Não há esperança que o mundo se cure, por mais que passe certa sensação de segurança, na realidade não há nenhuma, de fato se torna ainda mais perigoso pra galerê do cigano. Mas depois de ver bandos tão violentos você se torna feliz de ver uma imagem (a família) que, em geral, estamos acostumados a relacionar com coisas boas, como segurança e afeto.

--=-=-=-=-=-=-=-=-=- Fim dos Spoilers pra todo lado -=-=-=-=-=-=-=-=-=--

É um filme muito bom, muito bom mesmo. Que recomendo muitíssimo para quem quer dar uma filosofada em como reagiria em dificuldades, ou em imaginar como a sociedade reagiria.

Ps. Acharam um ator pra fazer o menino que de fato é a cara da atriz que faz a mãe. Tô boba. :O




4 comentários:

  1. E a lata de coca-cola que sobreviveu ao apocalipse? Cara, não acreditei quando vi a cena. Kkkk puro merchan kkkkkkk... assisti o filme já faz um certo tempo, mas não esqueço da coca - cola e daquele lugarzinho claustrofóbico onde encontraram comida. Realmente é desesperador viver num mundo pós-apocaliptico. Eu não sei como reagiria numa situação dessas... acho q pteferiria estar morta. Bjuss... ótima resenha! #AragornS2

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  2. Verdade. Nem disfarçaram a propaganda. O que já foi uma surpresa, sempre fazem de Pepsi. heaiheauheu

    Acho interessante que nessas distopias sempre o maior problema vira o próprio ser humano. ^^"'''''''''

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  3. Eu fiquei viajando com relação ao final, no caso o Ladrão, não sei se percebi direito, se foi impressão minha, ele não possui o dedão esquerdo assim como o rapaz, chefe da família, que ajuda o menino no gim, fiquei pensando se não seria a "salvação do menino ali no meio do nada encontrando com o poder divino.
    O pai não queria ajudar o cara e logo depois sua doença piorou, o menino que sempre insistia em ajudar se salvou, meio curiosa essa relação.

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    1. Eu fiquei com a mesma dúvida Diego? Que raios a relação daquele dedo na história é porque o filme deu um close nessas imagens?

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